Introdução:

Psilocibina
Ao falar sobre “drogas” quase todos tem uma palavra a dizer, afinal, antes de uma reflexão é fácil recorrer a chavões progressivamente construídos como: “as drogas são o mal de nossa sociedade, não tem nada de bom em usar drogas, apenas causa problemas, não entendo como alguém pode querer isso”, pensar alguma relação drogas-mal (o usuário estaria cometendo pecado, sob controle do diabo, etc.) ou simplesmente considerar os usuários de drogas como os “outros”, marginais, doentes, que tem um comportamento indesejável e constituem um problema de ordem social (culpados pela criminalidade, pelas mortes de tantos “inocentes”). Enfim, o “problema das drogas” se coloca para muitos naturalmente, como um dado inerte, como se não houvesse historicamente nenhuma transformação nesta conjuntura, como se desde sempre tivesse sido assim.
Esta posição, simplista por si só, desistoriciza e desacultura os acontecimentos e, além disso, ainda ignora as origens de sua própria visão de mundo. Diante desta falta de rigor e ideologização barata, tantas vezes inconsciente, impõe-se repetir o já dito por tantos: substâncias psicoativas foram utilizadas em todas as sociedades humanas que temos registro, das mais diversas formas possíveis.
Procuraremos observar através deste texto não só a formação de dois modelos de atuação de relevância na política estatal: o proibicionismo e a medicalização, como também observar de que forma estas políticas foram se fiando pela história e produzindo (e/ou sendo produzidos por) modos de entender e interpretar o uso de drogas e, por conseguinte, os usuários e comerciantes das substâncias psicoativas. Nosso foco, posteriormente, será nas resistências a estes saberes, e a estes poderes, que se constituíram como formas de dominação e controle de amplas faixas da população mundial, dizendo de outro modo, a nossa pergunta seria: existiram formas de compreender o uso de drogas, ou mesmo um uso habituado, que não focassem na doença (modelo médico) ou na imagem do criminoso (modelo criminal)? Se existem, quais seriam estas outras percepções e, especialmente, quais seriam estas percepções e estas totalizações no Rio de Janeiro do século XX – XXI?
Para procurar desfiar o modo de explicação que se firma no decorrer do século XX de que os usuários e comerciantes de drogas seriam inevitavelmente um problema social, uma peste, é preciso que recorramos a um breve estudo histórico e antropológico, quiçá, genealógico, já que em muitos momentos da história diversas lutas e conflitos sobre as drogas giraram em torno de pontos de vista/intervenção divergentes, sejam mais liberais, mais conservadores, mais restritivos, mais libertários ou mesmo mais ritualizados. Portanto, se não temos nem sequer como mapear os movimentos “originários” com precisão, tampouco verdades redutoras da complexidade do fenômeno, teremos que nos enveredar por este matagal de estranhas e incertas veredas, onde, se tivermos um faro mais aguçado poderemos entender o quão diversa já foi e ainda é a utilização de substâncias psicoativas, e como se sedimentaram ao longo dos anos interpretações que não refletem a riqueza destes processos históricos, mas antes, uma ânsia de controle e dominação.
Antiguidade e Idade Clássica
Para citar alguns exemplos da antiguidade, acerca do uso da maconha e do haxixe, podemos lembrar que:
A experiência humana com maconha e haxixe remonta a tempos imemoriais. Os mais antigos restos de fibra de cânhamo, que provém do quarto milênio a.C foram encontrados na China.
A religião védica arcaica venerou a planta, chamando-a de ‘fonte da felicidade e da vida’; as tradições bramânicas posteriores consideraram que seu uso agiliza a mente, concede saúde, valor e potência sexual. O budismo viu nela um auxiliar para a meditação transcendental. Heródoto menciona que era usada por escitas e persas, e o kiphy faz parte das drogas do primeiro império egípcio. (Escohotado, 1997, p.196).
A maconha chegou mesmo a ser, no taoísmo Mao Shan, deificada como nos informa Peter Lamborn Wilson em “Chuva de Estrelas: o sonho iniciático no sufismo e no taoísmo”. Segundo Wilson (apud Beserra, p.):
[...] o Taoísmo Mão Shan foi (até onde sei) a única tradição religiosa a deificar a erva cannabis – como Ma Ku ou ‘lady Hemp’” sendo sempre interessado “no poder transformador de drogas, remédios, cogumelos ‘mágicos’, pílulas alquimistas e outros tipo de ‘soma’ (Schaefer, 1985:90-102).
Embora vejamos as menções honrosas as estas substâncias alteradoras da consciência, nada nos leva a crer que houvesse um uso abusivo destas substâncias nestes períodos, muito pelo contrário, as produções encontradas nos levam a crer que havia em sociedade ritualizadas uma utilização contingente e socialmente integrada/integradora. A cannabis foi utilizada também na Grécia e no Império Romano (com influencias gregas pelo La Lex Cornelia) sem problemas sociais ou políticos. É preciso sinalizar a compreensão que os grego-romanos tinham de drogas, uma concepção “pagã”, que diferirá substancialmente do entendimento cristão e islâmico (islâmico após século XIII – XIV), para esta definição grego-romana podemos dizer que “Droga é uma palavra indiferente, da onde cabe tanto o que serve para matar como o que serve para curar, tal como para os filtros de amor, mas esta lei só reprova usá-la para matar a alguém”[1] (Escohotado, 1994, p.21). Então, para os romanos, neste aspecto, como na constituição dos EUA, a liberdade do outrem só poderá ser alvo de censura, de alguma intervenção, quando serve efetivamente para causar um dano ao próximo.

Peiote
Longe de se pretenderem apologéticos, estes comentários visam des-fazer ou des-naturalizar a percepção de que as substâncias psicoativas hoje proibidas constituiriam sempre um problema social. Na Antiguidade era muito comum a utilização circunscrita de substâncias psicoativas, de forma a impedir a dependência, no entanto, também encontramos utilizações hedonistas e que nem por isto eram problematizadas ou causavam claros males sociais. (Oliveira, 2005).
Dentro da classificação das drogas, seria muito fácil, quiçá ridículo, demonstrar todas as funções rituais, espirituais, organizacionais, já promovidas a partir da utilização das “drogas” que Escohotado chama de visionárias ou alucinógenas[2]. Basta citar o cacto Peiote (Lophophora williamsii) que “cresce numa larga extensão que vai do Texas ao México setentrional. Seus brotos contêm mescalina” (Zoja, 1992, p.59). A palavra indígena para peiote era a mesma para remédio. A mescalina chegou mesmo a ter uma entidade protetora própria, o mescalito, e uma filosofia indígena que teve um boom no final do século XVIII chamada peiotismo, onde o peiote era utilizado de modo socialmente integrado e integrador, de forma ritualizada.
A prática é assinalada também em tempos recentes por uma forte difusão e até por fenômenos de crescimento (em 1951, atingia cerca de um quinto dos Navajo; em 1964, mais de um terço). O peiotismo seria hoje a primeira das religiões indígenas (op. cit).
O álcool, p.ex, foi dado aos egípcios por Osíris, aos gregos por Dioniso e muitas vezes era associado a contextos rituais. “No Antigo Testamento é relatado como Noé, depois de sair da arca, plantou uvas, produziu vinho e embriagou-se (Gênesis, IX, 20-25)” (Oliveira apud Beserra, p. 12, 2008). Ainda:
Em 2.200 a.C. há registros indicando que se recomendava cerveja como tônico à mulheres em lactação. No século VIII a.C. Hammurabi manda executar o taberneiro que rebaixar a qualidade da bebida. Se há recomendações para seu uso, há também registros antigos de restrição. Um papiro egípcio de 2000 a.C. diz: “Eu, teu superior, te proíbo de ir às tavernas. Estás degradado como as bestas” (Escohotado, 1994, p.9).
A origem etimológica de álcool vem do árabe al-kuhl “no início da era moderna, através da linguagem dos alquimistas, e significa ‘pó fino e seco’ (Paracelso: alcohol vini, essência do vinho)” (Zoja apud Beserra, 2008, p.12).
Mais ainda, mesmo dentro de uma sociedade capitalista acelerada, estressante, alienadora, diversas substâncias tiveram um uso bastante razoável num determinado período histórico. Antes da constituição da cultura junky, no seio da miséria gerada pelo modo de organização da sociedade capitalista, o uso da heroína (diacetilmorfina) não constituía um problema tão severo para saúde pública. A heroína, “droga terrível”, era comercializada no final do século XIX pelos laboratórios Bayer, nosso gigante farmacêutico-comercial, que ainda era modesto, e o prospecto da heroína dizia:
1 – Ao contrário da morfina, esta nova substância produz um aumento da atividade. 2 – Atenua temores. 3 – A dose mínima faz desaparecer qualquer tipo de tosse, mesmo na tuberculose. 4 – Os morfinômanos tratados com esta substância perderam de imediato qualquer interesse pela morfina. (Escohotado, 1997).
Longe de camuflar diversos efeitos perigosos da heroína (mais facilidade que a morfina para provocar síndrome de abstinência, pode provocar dependência física, a dependência é facilitada já que alem do efeito tranqüilizante ela deprime menos que o ópio, que a morfina e que a codeina, é mais penetrante intelectualmente, possui mais riscos no uso endovenoso, muito embora, existam outras formas de uso deste “narcótico” (op.cit)) é preciso também considerar que ela, como substância, não é o “invariavelmente mau” como queriam pintá-la, mas, como todas as substâncias psicoativas os resultados de seu uso estão sempre interligados ao sujeito que utiliza a droga, como ele a utiliza, e seu contexto mais amplo. Dito isto, nos EUA, em sondagens com anonimato garantido, mais de nove milhões de pessoas declararam já ter usado heroína ocasionalmente, “embora apenas dezoito mil a cada ano procurem tratamento de desintoxicação. Isto indica que 0,18% dos consumidores se consideram incapazes de autogoverno, enquanto que os 99,82% restantes enfrentam por si mesmos não só as tentações da dependência, mas um mercado negro repleto de perigos alheios à intoxicação propriamente dita” (op.cit, p.80). A heroína que era vendida normalmente raramente superava 5% de heroína e se tratava de mistura de morfina de baixa qualidade com drogas de farmácia (as mortes pelo uso de heroína não se deveram apenas a overdose, mas as misturas utilizadas no mercado ilegal, lembrando que a margem de segurança da heroína é de 1 por 20 ou 1 por 30, muito similar a da morfina). Um dado ainda mais impressionante é que os primeiros ansiolíticos, o clordizepóxido e o meprobamato, the happy pills, produzem uma síndrome de abstinência mais pesada que a da heroína (op.cit). Entramos aqui em caminhos essenciais de serem abordados, a influência da repressão na utilização de uma substância psicoativa e, antes de entrarmos numa “introdução” a origem do proibicionismo, creio valer a pena citar uma passagem de Escohotado (1997, p.28), onde este nos diz:
Sem dúvida, a influência que a aceitação ou a rejeição de uma droga exerce sobre o modo de consumi-la pode ser tão decisivo como suas propriedades farmacológicas. Assim, enquanto o café esteve proibido na Rússia era freqüente que os usuários o bebessem aos litros e entrassem em estados de grande excitação. Isso fez com que as autoridades pensassem que esta droga criasse uma ânsia irreprimível. Ainda mais evidente é o caso do ópio na Índia e na China durante o século XIX: na Índia (onde não estava proibido) um consumo muito superior per capita/ano originou um número de usuários descomedidos muito inferior ao da China (onde o consumo estava sujeito à pena de morte).
[1] – Todas as passagens de Escohotado (1994) são traduções minhas, a maioria dos livros do maior historiador das drogas mundial infelizmente (e surpreendentemente) não estão traduzidos para o português.
[2] – De um modo geral as substâncias mais potentes deste grupo como o LSD são visionarias, já que produzem visões em que o observador, o usuário da substância, mantém uma certa distância crítica em relação a visão (na maioria das vezes), diferente, p.ex, de uma pessoa tendo alucinações com um delirium tremens. O tipo de relação que se estabelece com a “imagem” é diferenciada. Portanto o nome “alucinógeno” não é um nome muito rigoroso em sua relação com as “alucinações” que geraria.